A IA não tem de ser o ponto de partida

Direção Criativa
inteligência artificial
A Inteligência Artificial (IA) está em todo o lado. E ainda vamos continuar durante algum tempo a ver empresas a anunciar com grande entusiasmo que usam IA.

“Powered by AI.”
“Now with AI.”
“AI inside.”

Por Rui Correia, Diretor Criativo da DUDE 

IA

Daqui a uns anos isto vai soar tão estranho como uma empresa anunciar hoje que está ligada à Internet. Claro que está.

A IA vai simplesmente fazer parte das ferramentas que usamos. Aliás, na DUDE já faz. Eu uso, a equipa usa e não vejo grande interesse em esconder isso ou entrar naquela conversa de que a tecnologia está a destruir a criatividade. É uma ferramenta incrível e seria absurdo não aproveitar aquilo que nos permite fazer.

Mas há uma coisa em que tenho pensado bastante: a IA não tem de ser o ponto de partida.

Uma ideia pode começar numa conversa no estúdio, numa coisa que vimos na rua, numa fotografia, num livro, num rascunho, numa música ou numa referência que aparentemente não tem nada a ver com o projeto. Às vezes começa simplesmente numa ideia parva que alguém manda para o ar.

E depois, algures pelo caminho, podemos chamar a IA.

Para testar rapidamente uma coisa, procurar associações, experimentar uma direção visual ou perceber que aquela ideia que parecia genial afinal não era assim tão genial. Às vezes entra cedo no processo, outras vezes mais tarde. Há projetos em que provavelmente nem precisamos dela.

É assim que gosto de olhar para a IA enquanto criativo. Não como o sítio onde temos obrigatoriamente de começar, mas como mais uma ferramenta que está ali quando precisamos dela.

Porque se começarmos sempre no mesmo sítio, com as mesmas ferramentas e provavelmente com prompts não muito diferentes uns dos outros, também não podemos ficar muito surpreendidos quando começarmos todos a chegar a sítios parecidos. E esse é talvez o lado que me interessa mais nesta discussão.

Já conseguimos gerar imagens incríveis, vídeos bastante convincentes, textos perfeitamente aceitáveis e dezenas de propostas gráficas com diferentes direções em muito pouco tempo. Daqui a um ano serão melhores. Daqui a dois, provavelmente nem vale a pena tentar adivinhar.

E isso é ótimo.

Ao mesmo tempo, tenho dado por mim a valorizar cada vez mais coisas que não são perfeitas.

 

IA
processo criativo

Uma ideia que muda completamente depois de alguém na equipa dizer “e se fizéssemos ao contrário?”. Uma fotografia que nos leva para um caminho que não estava previsto. Um esboço rápido que acaba por ter mais personalidade do que aquilo que passámos horas a aperfeiçoar. Ou simplesmente aquele momento em que estamos a experimentar sem saber muito bem onde aquilo vai dar e aparece qualquer coisa que não estávamos à procura.

Nem sequer estou a falar de tentar parecer artesanal. Acho particularmente divertido já estarmos a pedir às máquinas para fazer coisas “mais raw”, “menos perfeitas”, “mais humanas”, para depois acrescentarmos grão e uns erros pelo caminho.

Estou a falar das falhas que aparecem mesmo porque há pessoas a fazer coisas.

Talvez seja por isso que continuo a gostar de desenhar, fotografar, imprimir, recortar, mexer em tipos e experimentar materiais. Não é nostalgia e muito menos uma posição contra a tecnologia. É só outra forma de chegar às ideias.

E muitas vezes é precisamente quando uma coisa não corre como previsto que aparece algo interessante.

A IA pode perfeitamente fazer parte desse processo.

Quero poder testar com ela ideias absurdas em segundos, em vez de gastar três horas para descobrir que não funciona; explorar uma direção ou uma possibilidade em que não tinha pensado.
Mas não quero sentir que tenho de começar sempre por abrir uma caixa de texto e perguntar o que devo fazer.

Há uma diferença entre usar uma ferramenta para explorar uma ideia e deixar que a ferramenta seja a ideia.

Talvez seja essa a parte que vamos ter de aprender nos próximos anos: não apenas a usar cada vez melhor a IA, porque isso provavelmente todos vamos fazer, mas também a perceber quando não precisamos dela.

No meio de tanta coisa cada vez mais rápida, polida e perfeita, talvez as pequenas imperfeições acabem por dizer mais sobre nós do que pensávamos.

E estou bastante confortável com isso.

Rui Correia DUDE Creative Agency — proudly, imperfectly human. ☕

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